Desde pequeno ouvia as fabulosas histórias do avô, com o olhar apalermado, entre a incredulidade e o pouco caso. De como as mais prosaicas atitudes do dia a dia tornaram-se marcos na história da humanidade, como naquele 25 de setembro em que trocou a lâmpada queimada da casa da vizinha, provocando o blecaute que durou duas semanas e que levou a cisão de vários lares, pois, sem luz, os maridos traídos não podiam tocar a campainha e anunciar sua chegada.

Relatos de favores prestados, muitos dos quais sem querer, povoaram o imaginário daquela casa, onde o santo nome do avô só podia ser pronunciado em ato contrito, quase ajoelhado, e com olhos marejados de temor. Seus objetos pessoais, considerados troféus de batalhas místicas, tornaram-se intocáveis.

E foi lembrando disso que, já adulto, voltara àquelas quinquilharias, amontoadas e trancadas no quartinho desde a morte do velho. O cheiro de mofo estuprando suas narinas remete-o à infância, retornando, vigorosas, todas aquelas lembranças sem pé nem cabeça.

Sob o estrado da cama, roído pelos cupins, a cadeira preferida do vovô. Cada rasgão daqueles, que expunha as entranhas de espuma, contava uma passagem de sua infância. Por isso nunca entendeu por que os adultos da casa jamais deixavam que ele se sentasse naquela cadeira. Diziam que o avô não queria e pronto, sem mais explicações. Era só insinuar a bunda no estofamento  que logo vinha alguém, aos berros, para tirá-lo.

Hoje, numa crise de auto-afirmação, resolve sentar-se na maldita cadeira.  A poeira levantada cria uma pesada névoa a sua volta. Alguns minutos foram suficientes para aparecerem estranhas manchas avermelhadas nos braços que, ato contínuo, foram coçadas até  sangrar. Manchas essas iguais as que seu avô possuía pelo corpo todo. Descobriu, naquele momento, o terrível segredo de sua família. A ziquizira de pele foi a única herança palpável deixada pelo avô que, na verdade, não era lá muito chegado a tomar banho…

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