Desde que passou a receber estranhas ligações telefônicas, daquelas que, quando se atende, o outro lado desliga, resolveu tomar as providências que sua paranoia solicitava.

Ao andar pela rua, reparava em todos a sua volta, desde o camelô até o pombo, suspeitissimamente pousado no poste em frente a sua casa. Chegou, mesmo, a ficar duas semanas com a perna gessada pisando em um buraco que, por estar vigiando uma freira carmelita, não viu.

Passou a sair de casa nos mais variados horários, acarretando, por isso, monstruosos descontos em seu salário pelos constantes atrasos. Acreditava que, assim, se resguardaria de possíveis sequestros, sem levar em conta que, com sua tática, não sobraria dinheiro algum para pagar a bandidagem.

Comprou um caderninho para anotar as entradas e saídas da mulher e filhos. Aproveitou a ocasião, inclusive, para dar uma dura na patroa, que andava muito saidinha, passeando a tarde toda sem dizer por onde.

Com o tempo, entretanto, o número das estranhas ligações foi aumentando, colocando toda família em pânico. Até que o filho menorzinho, num rasgo de perspicácia, lembrou que podiam entrar em contato com a operadora para rastrear as ligações. Este rasgo, diga-se de passagem, aumentou suas suspeitas em relação à esposa, haja vista ser pouco provável que o menorzinho fosse filho seu.

Após mais algumas semanas tentando o contato via telefone, sem sucesso, com a companhia, finalmente conseguem saber de onde partem as estranhas ligações. Agenor, primo distante de sua esposa, tentava ligar para sua casa. Devido ao mau funcionamento da linha, as ligações simplesmente não se completavam.

Mais aliviado por não se tratar de tentativa de sequestro, resolve, entretanto, cismar com a cara do filho menor (o do rasgo) que, estranhamente, se parece muito com o Agenor.