Desde sua mais tenra idade, já enchia o saco das tias com a história de que, quando crescesse, seria modelo e manequim. Ao brincar com as bonecas, apenas a mãe conseguia visualizar alguma capacidade estética na menina. As roupinhas que a pobrezinha fazia, que ninguém nos escute, eram um desafio ao instinto maternal mais recalcado. Sem pé nem cabeça, só restava a mãe elogiar, meio sem graça, as criações da filhota.

Com o tempo a menina foi encorpando, passando mais tempo do que seria prudente na frente do espelho. Contorcendo-se em poses, caras e trejeitos, repetia o jeito de ser da mulherada mais famosa. Inclusive andou um tempo sem abrir a boca, haja vista que jamais ouviu a voz de qualquer uma dessas modelos que andam por aí. Acreditava, por isso, que falar besteira era out!

Se no berço já vaticinava-se um futuro sombrio para a feiosa, quando atingiu a puberdade, então, passaram a acreditar em maldição. O nariz, adunco, quase tocava a ponta do queixo, fechando um arco sobre o leve bigodinho que nascia. Tudo isso assistido por dezenas de espinhas prestes  a explodir. Motivo de chacota para todas as primas, foi a única a não se casar antes dos quarenta.

O tempo passou e todas as primas, já separadas e com dois empregos para sustentar a filharada, continuavam a pegar no pé da prima feiosa. Porém, dessa vez, com muito mais rancor. Com a vida tranquila, a nariguda jamais chegava em casa antes das quatro da manhã, sem um descadeirado sorriso nos lábios. Trocando de namorado como quem troca de absorvente, jamais se divertiu tanto, provando que beleza não é fundamental.

Fundamental é saber rebolar…