Sentou-se ao lado da filha dimenor, sem fazer barulho, apesar do rangido da cadeira. Demorou cerca de mil anos o seu silêncio, sem saber como puxar conversa. O que dizer nesta situação, quando toda a rua já sabe da esfregação da menina com o filho da manicure do 503? Apelou pro diálogo clássico:

– Miserável! E logo com o imbecil do Pedro Antônio, aquela mula!!!!

Os discretos ruídos de panelas e portas batendo, que se seguiram, denunciaram o momento em que dona Jandira soube que seria avó. Tamanha felicidade não coube em um sorriso seu, posto que demorou uma semana para achar sua dentadura, expelida furiosamente durante o transe, indo parar atrás do sofá.

Algumas horas depois, já serenados os ânimos (mais por falta de fôlego do que por tolerância), dona Jandira tenta retomar o diálogo com a boca mole:

– Seu pai vai ficar sabendo disso… Ah, vai! É só voltar pra casa, aquele bêbado! E a criança, o que vai ser dessa infeliz? Vão viver de quê? Vão comer o quê? Sua prima casou de véu e grinalda! E você, heim? Diz alguma coisa!!!

– Pedro Antônio não é o pai…

Atirada instantaneamente por uma dobra espacial, para o hiperespaço, dona Jandira demora a voltar à Terra. Chegando, consegue balbuciar:

– …pai…dro…não…bhgfpwkm…

– Não! Não é o pai! Aliás, não sei se é o pai… pode ser…sei lá, estava escuro naquela barraca apertada! Entende? Eu tava de porre… devia ter pegado, pelo menos, o telefone daqueles três caras, amigos do Pedro Antônio. Eu nem lembro como são… meus olhos estavam ardendo de tanto fumar maconha…sei lá, entende?

Testemunhas afirmam ter visto dona Jandira pela última vez, há seis meses, vagando sem rumo pela estrada que leva a Porto Velho, Rondônia, com um estranho risinho em sua boca murcha, catando pontas de cigarro e papel de bala pelo chão. Qualquer informação, ligar pra sua casa…

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