O sol lançava seus dardos pelas frestas da janela, anunciando o primeiro dia da felicidade recém conquistada. Há apenas algumas semanas pedira demissão da loja de ferragens, saturado que estava de levar ferro. Convencera a mulher a torrar a poupança e a vender o apartamento deixado de herança pelo sogro comprando, baratinho, um chalé a oitenta e cinco quilômetros da única estrada de terra batida da região. Aos 45 anos, jamais deixara de morar em apartamento. O mais perto que chegou da terra foi quando levou um tombo:

– Enfim, o retorno às  raízes! – relinchou, entre grilos e pererecas.

Leonora, que até então olhava assustada para aquele fim de mundo, tomou coragem e partiu para a faxina que o chalé implorava. Em pouco tempo, descobriu que as torneiras tinham apenas efeito decorativo. Água não havia. Mas era só ligar a bomba e pronto, já que a caixa d’água, pela falta de uso, certamente estava vazia. Dez minutos  de procura angustiada pelo quintal foram o suficiente para o pânico generalizado, pois mesmo que houvesse a tal bomba, não haveria luz nem querosene para funcionar.

– Ah, a vida no campo! A harmonia da criação, longe do stress da cidade grande…

Naquele momento perceberam todo o significado da palavra solidão. Sem água, luz e telefone, em meio a um silêncio ensurdecedor, só quebrado pelo zumzumzum da mosquitada. Sentaram-se no toco de árvore podre e choraram, abraçados, durante horas. Choraram pela poupança e o apartamentinho do sogro que a imobiliária levou, o empreguinho que perderam e aquela poluiçãozinha tão gostosa, longe de toda essa baixaria de natureza…

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