Cabo Linguiça (esse o seu apelido) era o orgulho da corporação. Em quinze anos de serviços conseguiu manter imaculada sua folha corrida. Não que fizesse força para isso, mas sua educação, adquirida com esmero num colégio de freiras, não permitia que fosse descortês com seu semelhante.

E por se sentir semelhante demais, jamais pôde usufruir da autoridade que lhe foi conferida. Em dia de blitz, provocava grandes engarrafamentos ao pedir desculpas aos motoristas (principalmente aos que estavam com carros roubados) pelo transtorno.

Debulhava-se em rapapés diante do mais inexpressível ladrão de galinhas, chegando a sentir-se culpado por estar usando farda. Chegou a ser mal visto por quase todos seus colegas que percebiam nele um potencial vereador em campanha.

Se a bandidagem estacionava irregularmente o carro durante um assalto a banco, relutava em aplicar o corretivo, colando o adesivo de “multado”com os olhos marejados pela emoção. E se alguém fosse preso, perguntava antes se o vagabundo possuía plano de saúde. Se não, o próprio Linguiça providenciava a guia de internação. Com os camelôs, então, chegava ao ponto de dar troco na hora da propina.

Enfim, cabo Linguiça era um exemplo a ser seguido. Apenas uma pequena nódoa em sua biografia chamava a atenção. Recentemente cabo Linguiça conseguiu aumentar seu patrimônio em mais dois carros importados (de luxo), três apartamentos, duas casas de praia e sete lojas comerciais, tudo isso conseguido com muita luta, abnegação, amor ao próximo e o piso salarial da categoria. Sem dúvida cabo Linguiça era um exemplo a ser seguido.

De perto, pela Polícia e a Receita Federal…

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