O tempo passou como um traque para o Ferreira. Mal podia acreditar que há exatos vinte anos entrou para aquela repartição e que sua vida nunca mais seria a mesma. Se antes nada fazia, após esse dia continuou não fazendo nada, só que recebendo salário! Realmente um progresso…

Mas as Parcas já rondavam seu jardim, à espreita do melhor momento para levá-lo deste mundo. Certamente ninguém daria por falta do Ferreira, mas, sacumé, não se pode sair assim, sem avisar. Seria, no mínimo, falta de educação. Decidiu fazer um testamento, aproveitando os intervalos disponíveis entre um ócio e outro lá na repartição:

– Às futuras gerações, deixarei tudo de bom que produzi na vida!

Após a crise de gargalhada, Ferreira relê o papel. Outra crise ao chegar na palavra “produzi”:

– Deixo minha gaveta impoluta, pois nunca encontrei a chave, razão pela qual não juntou poeira. Meus carimbos de “ciente”, “nada consta” e “publique-se e cumpra-se”. Meu guichê, eternamente à espera de minha barriga, onde jamais a encostei…

Ferreira não teve filhos, apesar da vontade da mulher. Uns diziam que a culpa era dos espermatozoides; outros, da incompetência para a tarefa. No fundo, o rapaz jamais se propôs a fazer força sem levar alguma propina.

Fim do expediente e o Ferreira dá os últimos retoques em seu testamento. Escreve, rapidamente, as últimas linhas do texto, para não perder o ônibus, dobra o papel e põe no bolso. Missão cumprida!

Com seus problemas resolvidos, passam-se meses e nada do Ferreira morrer. Para passar o tempo, redige seu testamento várias vezes ao dia, em três vias carbonadas, todas elas com firma reconhecida em cartório e cinco carimbos diferentes. Esta é, sem dúvida, a época mais produtiva da vida do Ferreira, que de tão feliz, nem pensa mais em morrer.

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