Desde pequeno adorava animais, principalmente os cães. Apesar da infância passada em apartamento, guardava com saudades os momentos inesquecíveis que passara com seu cãozinho, o Antuérpio. O primeiro cocô feito atrás do sofá (e descoberto semanas depois), o primeiro ataque a dentadas ao filho da vizinha, e a primeira esfregação do Antuérpio em sua perna. Jamais esqueceria o constrangimento da família, inclusive o da sua avó que veio de Juiz de Fora para o Natal. Bons tempos, snif, snif!

Antuérpio cresceu feliz porque comia bonzo e chegou a hora de ensinar alguns truques ao marmanjão. Afinal, é objetivo único de todo dono de cachorro matar a vizinhança de inveja. Com a grana curta, decidiu, ele mesmo, ensinar. No corredor do prédio, improvisou uma universidade:

– Senta, Antuérpio!

O cão só atendeu ao comando por ser cansado de nascimento. Sentou-se. Entusiasmado com o inesperado sucesso, ordenou energicamente:

– Morto, Antuérpio!

Antuérrpio fitou seus olhos, profundamente, à procura de alguma razão metafísica para atender ao seu pedido. Não encontrando, esperou:

– Antuérpio, mooooooooorto!

Pouco afeito à proverbial paciência budista, resolve pisar na pata do animal para provocar alguma reação. Uivando desafinadamente, Antuérpio dá uma dentada na tenra rótula de seu dono.. Este dispara casa adentro, em direção à cozinha, procurando a faca do pão. Dá três vigorosas estocadas no cachorro que, até então, dilacerava sua batata da perna. Sobre a carcaça de seu melhor amigo, brada orgulhoso e esfalfado:

– Quando eu digo “morto” é morto, mesmo, Antuérpio!!!

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